Dia da Saúde Mental – Matar-se ou evitar a Morte?

O Dia da Saúde Mental assinala-se hoje, poucas horas depois de a ONU ter revelado que um milhão de pessoas cometem suicídio todos anos, num fenómeno que poderia ser atenuado se houvesse mais acesso a pessoal qualificado e medicamentos.

Não deixa de ter uma certa piada, o reconhecimento da falta de acesso a pessoal qualificado a este tipo de problemáticas. Reconhecemos o quão necessários são, reconhecemos que existem muitas mortes que poderiam ser evitadas, e reconhecemos a percentagem de desempregos, e a percentagem de vagas não abertas em locais necessários. Na prática, reconhecemos tudo isto hoje, porque é bonito dizer estas coisas no dia da saúde mental. Mas claro que não fazemos muito mais. A situação manter-se-á inalterada, como sempre.

Mas, e não negando o quão tudo isto é importante, falemos no Suicídio.

Todos sabemos que em estados depressivos graves, a ideação suicida poderá estar presente, sendo um dos grandes motivos de preocupação: temos pela frente o verdadeiro risco de morte, que muitas vezes parece secundário, quando falamos em perturbações mentais. A pessoal poderá estar de tal forma toldada pelos seus pensamentos negativos, que não consegue discernir uma melhor solução que a morte, para acabar com os seus problemas. É aqui, que os profissionais de ajuda poderão ter o seu papel: ajudar a pessoa a descobrir que existem sempre mais caminhos, e que por mais negra que parece a situação, provavelmente existe um escape que não tem sido avaliado.

Muitos de nós, conhecemos casos de pessoas que cometeram suicídio, que nos fazem pensar “Porquê, se tinha tanto para dar?”; “Se tivesse vivo, de certeza que tinha conseguido superar o problema e hoje estaria bem”; “Nunca pensei que uma pessoa tão inteligente, com tanta coisa conseguida, fosse tomar uma atitude destas”.

Se por um lado, poderá ser uma atitude levada pelo impulso: O desespero insuportável do momento que leva a seguir um rumo sem volta, por outro lado poderá ser um acto pensado, planeado, ponderado. Se na primeira opção, nos é mais fácil visualizar o acto como um erro, a segunda leva-nos mais a concluir que se tratou de uma escolha do próprio. Até que ponto deveremos achar que temos o direito a escolher se devemos ou não permanecer vivos? É uma escolha que nos cabe a nós? Não estaremos por vezes demasiado consumidos por pensamentos depressivos, de tal forma que nos tornamos incapazes de poder ser responsáveis por tal decisão?

Se na verdade, existe uma imensidão de casos, em que os problemas da vida não justificam tal acto, por outro lado existem mesmo vidas miseráveis, nas quais pensamos que deverá ser dificílimo ter forças para permanecer vivo. Pessoas sobre as quais admiramos a força de lutar, admiramos a coragem. Morrer, seria perder totalmente as forças, seria visto por muitos como uma cobardia. Será que temos sempre a obrigação de lutar? De ser fortes? De ir mais além? Mas quem é que saberá, se a vida “justifica” ou não tal acto? Poderemos imediatamente dizer: nada justifica a escolha pela morte. Será?

A verdade é que pouco sabemos da morte. Se o suicídio poderá ser visto, por um lado, como uma espécie de pecado, ou como cobardia, poderá por outro lado, ser encarado como uma espécie de salvação. Seja como for, as nossas crenças acerca da morte, e do que acontecerá (ou não) depois desta, deverão influenciar grandemente a opinião que temos acerca do suicídio.

Em jeito de conclusão, penso que sim, que de facto deveríamos promover ajuda a todas as pessoas. Acredito que continuariam sempre a haver suicídios, mas uma boa fatia de casos, poderia ser evitada. Seria uma espécie de alívio na consciência do mundo, se pelo menos tivéssemos a liberdade de dizer que “fizemos tudo o que estava ao nosso alcance”.

Psicologicamente Suicida

26 Respostas to “Dia da Saúde Mental – Matar-se ou evitar a Morte?”

  1. Pedro Miranda Says:

    gostei mto do teu post. muito equilibrado e sem preconceitos.

  2. Parvo Na Cadeira Says:

    É enggraçado ver os efeitos que a religião tem na interacção social, no tempo dos romanos o suicídio era uma prática aceite e até venerada em certos casos.

    Já no Japão encontramos a prática de “Seppukku” também aceite entre guerreiros e nobres como forma de manter a honra.

    Hoje em dia o suicídio é um tabu, o que só por si deve levar várias pessoas a experimentar essa “estrada proibida”.

    Se bem que na maioria dos casos os suícidios são apenas uma forma falhada de chamar a atenção.
    Bela sociedade esta, em que somos tão livres para fazer tudo mas em que não há confiança em ninguém para desabafar para libertar a pressão.

  3. ELISABETE CUNHA Says:

    Psig já estava sentindo falta do seu post.Infelizmente quando alguém pensa no suícidio,na realidade,ela não quer matar a vida e sim a sua dor.Filosoficamente falando,todo pensamento sobre a morte é uma manifestação da vida, pois representa o pensamento vivo pensando na morte e não a morte pensando em si mesma.Quem pensa em morrer tem,no fundo, fome e sede de viver.Está procurando desesperadamente destruir a angústia e não terminar a sua vida.(espero que entenda o meu ponto de vista). Um abraço!

  4. Charlotte_gray Says:

    Tocas num tema muito delicado e levantas algumas questões interessantes. Pessoalmente, concordo com algumas coisas que a Elisabete referiu. Independentemente das razões que possam levar alguém a cometer suicídio, julgo que se lhes fosse dada a opção de uma vida feliz (que se concretiza de forma diferente para cada pessoa), ninguém escolheria morrer. Talvez seja um preconceito da minha parte, mas creio que existe em todos nós uma espécie de instinto de sobrevivência que tende a prevalecer. Creio que o suicídio é uma questão muito complexa e parece-me óbvio que a ideação suicida não é algo que surge de um dia para o outro, daí que o ideal, penso, seja apostar-se na prevenção. Como disseste, isso, infelizmente, ainda não acontece muito. Mas sabes, eu já nem falo de técnicos e medicamentos. Pode parecer cliché dizer isto, mas as pessoas, actualmente, vivem a um ritmo cada vez mais rápido, cada vez mais competitivo… certos valores, como o sucesso profissional e até um certo individualismo parecem ter ganho terreno, enquanto que, para falar sobre sentimentos, conviver, sobra cada vez menos tempo. Outra coisa é o “síndroma da falta de tempo” e o pouco tempo que se tem é para trabalhar ou… whatever. Há cada vez menos aquele sentimento de pertença, sei lá, a um bairro (ex: conheceres os vizinhos, estarem juntos, saberes que podes confiar), à comunidade… Esses pensamentos negativos de que falas emergem e desenvolvem-se na pessoa sem que outra, de fora, muitas vezes, tenha consciência disso. Talvez seja lamechice da minha parte, mas talvez a mudança deva partir também de nós (todos), no sentido de estarmos mais atentos e disponíveis para o outro, às vezes gestos simples fazem a diferença. “É urgente o amor”. No fundo acho que é muito isto.🙂

  5. ELISABETE CUNHA Says:

    Charlotte: Muito sensato o seu comentário, concordo com você! Um abraço! 🙂

  6. Knight Rider Says:

    Fome e sede de viver?? mais tentativa forçada de chamar atenção isso sim.

    Que se matem na poluem a gene pool com mentalidades fracas. E sim sao mentalidades fracas quando pessoas bem piores que estao a morrer e tentam sobreviver .. essas sim têm fome e sede de viver e não estupidos que se atiram do 2º andar.

    e sempre se poupava um dinheiro que se podia usar melhor.

    • momento Says:

      Podes-se sempre pensar em tudo, na igreja, na musica, até na roupa…. aqui fica parte de um texto que li… “Por várias vezes comprei revistas de noivas, procurei quintas… imaginei. Como impulsos que vão e vem…durante anos..
      Já pensei não casar, aliás penso não casar.
      Sinto-me cansada, gozada, usada… não havia necessidade, há coisas que só desejamos porque nos são alimentadas e prometidas.
      O que resta de mim? Fui torrando as minhas poupanças, vivo da ajuda dos meus pais, que por sua vez sinto que a qualquer momento me poderão deixar de ajudar, um porque parece que não quer outro porque parece que quase não pode.
      Vamos vivendo a vida em troca de promessas, tomando rumos que nos bloqueiam o futuro.
      Estou verdadeiramente cansada, sempre acusada de tudo… as minhas forças ameaçam desistir.
      São anos a mais, e a culpa é sempre minha…
      Sim apetece-me comprar um vestido de noiva, e contratar um trio, um tenor, um violino e claro um piano, lindo… mas não para me casar, mas sim para ser enterrada com ele, e pelo menos teria uma “cerimónia bonita… mas que ninguém chore, pois serão lágrimas de crocodilo.
      Pena que não serve de nada, para quem fica, a vida segue, fica apenas uma ténue recordação que se desvanece no tempo, sem que ninguém tenha noção de como contribuiu para o meu fim.
      Estranho que ame o meu trabalho e ainda assim o deixe ficar, tudo ficará igual, só eu passarei a ser uma pessoa melhor, como qualquer morto que se preze.”

  7. ELISABETE CUNHA Says:

    Knith Rider: Não seja tão radical.Ás vezes, as ameaças de suicídio são a forma que a pessoa angustiada encontra para pedir ajuda e compreensão. É um grave sintoma da depressão.Depressão é uma doença séria!!

  8. Knight Rider Says:

    Eu sei que depressoes sao coisas serias tive mt tempo numa e eu próprio inda nao recuperei bem dela mas nao e facto para me por no topo de um predio e gritar que me vou atirar fazendo com que policias/bombeiros/ambulancias percam tempo comigo quando podiam tar a ajudar alguem que precisasse mesmo.

    Radical? talvez .. mas ha questoes onde sao precisos movimentos radicais para as pessoas se aperceberem de certas coisas =)

  9. Charlotte_gray Says:

    Knight Rider: não falo por experiência própria, mas parece-me que uma pessoa que está prestes a cometer suicídio pode não conseguir ter o pensamento lógico/altruísta do tipo “não me vou mandar de um 7º andar para não dar trabalho a polícias e bombeiros”. O que sempre me fez mais confusão é imaginar que podem não pensar nos sentimentos de tristeza, incompreensão e (sobretudo) culpa que os familiares/amigos irão sentir. Para mim esta seria, em última análise, a razão que levaria a pessoa a escolher viver. Mas também, é como já referiram: a pessoa entra num ciclo de pensamentos distorcidos e pessimistas em relação a si própria, ao mundo, ao presente e ao futuro. Se tiveste uma depressão, deves reconhecer certos pensamentos e sentimentos (tristeza extrema ou irritação, desesperança, sofrimento…). Talvez tenhas chegado a um ponto em que, ainda assim, conseguias ser “lógico” e “altruísta”. Mas se calhar há estados em que a pessoa está imersa num negativismo tal, que dificilmente vislumbra alguma solução positiva, muito menos altruísta. Olha, não sei. Do meu ponto de vista, o suicídio também é condenável, por todas as razões e mais alguma. Mas não consigo ser tão “radical” quanto tu. =) Continuo a achar que está inerente um sofrimento tão grande e complexo que dificilmente será compreendido por quem está “de fora”. Acho que o melhor é mesmo ir tentando prevenir e, se se detectarem sinais, fazer o possível para ajudar a pessoa.

  10. Knight Rider Says:

    lol nao era pa ser como pensamento altruista :p

    Mas é estupido se as coisas tao mal epá morto as coisas nao sei porque nao vejo que melhorem em nada.

    Ja agora quem se manda do 7º andar é ainda um cado inteligente mas ppl que se atira do 2º andar porque a namorada o deixou e ele nao consegue viver sem ela é ser estupido e é mais neste sentido que quis dizer em incomodar os vários serviços de emergencia.

    e já agora quem se tenta suicidar e falha acho que é ainda pior .. se nao conseguem fazer nada bem e falham em matar-se sinceramente nao deve fazer maravilhas para o estado de espirito lololol

  11. psig Says:

    Deve ser o maior sentimento de inutilidade existente…”nem para me matar sirvo” oO

    Para não falar, na possibilidade de ficar paralitico para o resto da vida, por exemplo. Se a vida já estava mal, então assim..acho que só mesmo tentando matar-se novamente oO

  12. ELISABETE CUNHA Says:

    Psig , estou sentindo falta dos seus posts inflamados , o que está acontecendo? Você é capaz e inteligente, mas parece que está com preguicinha de escrever!! Vamos lá!! abraço da brasileira!🙂

  13. ELISABETE CUNHA Says:

    Onde está você Parvo na cadeira? Sinto falta de uma briguinha!(do bem, claro) Aparece!:)

  14. ELISABETE CUNHA Says:

    Psig, estou sentindo falta dos seus posts!! ABRAÇO!

  15. ELISABETE CUNHA Says:

    Psig, ONDE ESTÁ VOCÊ?

    Estou com saudades dos posts!!!

  16. psig Says:

    voltam brevemente😉

    obrigada=)

    dun worry^^

  17. ELISABETE CUNHA Says:

    Que bom!!!🙂 estou esperando!

  18. ana Says:

    tenho 15 anos e estou com um problemão em casa sinto vontade de me matar oque posso fazer?
    me ajuda!!!

  19. Isabela Says:

    bom.. vim aqui perdir a ajuda de alguem.. pois a alguns tempos me sinto muito angustiada, chorando se motivos, triste, enfim..pensando em me matar mesmo! queria que alguem me ajudasse..pois ainda nao revelei isso a minha famila.. e els nem desconfiam.. obrigada!

  20. Psicologicamente... Says:

    Como devem calcular, via comments em blogs não é a melhor forma de ser encontrar ajuda.

    Se sentem que seria bom falar um pouco com alguém, receber essa ajuda, acho que podia ser positivo encontrar uma clinica, ou um hospital proximo, e marcar uma consulta. Lá podem encontrar a melhor forma de receber algum apoio especializado.

  21. Manuel Garcia Says:

    Eu também já tive ideias suicidas e até parece que ando a ser perseguido pela morte, a ajudar ao caso ainda está o facto de ter visto recentemente dois belíssimos de Ingmar Bergman, intitulados: O Sétimo Sêlo e O Rosto, ambos têm como pano de fundo o tema da morte – vejam que vale bem a pena, seja para psicologicamente suicidas ou não.

    E hoje tive a coragem de visitar o cimitério da minha terra durante a noite e li o seguinte numa inscrição feita numa pedra mármore: “É um Santo e Louvável Pensamento Orar pelos Mortos Para Que Sejam Livres dos Seus Pecados”.

    Olhei muito bem para o interior do cemitério e reflecti durante algum tempo e pensei para comigo: Eu posso estar muito triste, mas, apesar do abismo em que caí, jamais retirarei a vida a mim próprio, porque isso é da mais vil cobardia que possa existir;

    Estranho, mas quando ia de regresso a casa ouvi um tiro de espingarda, talvez fosse alguém que tivesse nesse momento posto fim à sua vida;

    Mas quando cheguei a casa observei o meu presépio e escutei uma blues lindíssimo ” All Your Love”, de Otis Rush… e fiquei animado;

    Encontro-me de momento desempregado e triste, mas não vai ser isso que me irá obrigar a cometer o suicídio, nem as ideias estapafúrdias de Fim do Mundo;

    Ainda quero aprender a fazer muita coisa nesta vida e a adquirir mais conhecimento e saber

  22. Tio. Luci...ver Says:

    Quem a ONU é ou quem os medicos ou psicologos pensam que são pra tentar mandar numa pessoa que se deve viver ou morrer se a pessoa decide viver foi uma escolha dela e do mesmo modo se escolhesse morrer deixe que morra porque foi escolha dele se os familiares e amigos vão ficar triste!? Azar deles quem mandou gostar do cara seria melhor que nem tivesse conhecido
    Só digo uma coisa quando uma pessoa faiz uma escolha dessas mas ninguem mas ninguem mesmo deve fazer alguma coisa pra impedir ou ajudar a mesma porque foi uma escolha dela
    O que a sociedade poderia fazer? criar um grande camarâ incinario ou de pressão(publica claro não é possivel que tambem cobrem $$$ por se suicidar neh?) e deixar que os decididos pulem la dentro oia só que beleza esta idéia todo mundo ia ficar feliz ou tambem pagar médicos para aplicar aquela injeção letal na pessoa conforme quisesse

  23. Mariana Says:

    Acho que a vida e assim mesmo, caotica e cheia de coisas que com dificuldade tentamos entender porque acontecem. Parece um pouco precipitado julgar quem comete suicidio. A questao envolve tantas situacoes e pessoas diferentes… A vida e melhor se vivida com alegria e entusiasmo, sem duvida. Mas prefiro nao julgar ninguem nem qualquer situacao…


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