Conto 1

(Um pouco diferente do habitual do psicologicamente, hoje deixo-vos algumas palavras de ficção. Nada pensado ou planificado, somente umas palavras aqui e ali em forma de pseudo-conto)

– Estou sim. Boa tarde, clínica Pompeu, em que posso ser útil?
– O meu nome é Joana Fonseca, tenho uma ecografia marcada para dia 10 as 17h, queria saber se seria possível marcar para um pouco mais cedo?
– Só um segundo, vou verificar.

Sofia pegou na agenda de marcações e encontrou o nome da paciente no dia e hora mencionados.

– Ora, temos aqui um espaço as 15 horas, é-lhe possível?
– Óptimo, Óptimo, é sim, fica para as 15 então. Muito Obrigada
– Obrigada e boa tarde

Mais uma semana de trabalho que chegava perto de fim. Sofia pegava na sua mala e saía da Clínica em direcção a sua casa. O caminho levava apenas dez minutos, percorridos a pé. Andaria de olhos fechados, se assim fosse necessário, de tantas serem as vezes que caminhava aqueles mesmos passos. As mesmas curvas, os mesmos degraus contados com precisão, as mesmas lojas, as mesmas casas. Sofia atentava em todos os pormenores. Sempre fora perfeccionista, com alguns traços a tender ao obsessivo. Como se um inexplicável medo lhe dissesse que um dia todas as informações lhe poderiam ser úteis. Se um dia qualquer acidente do destino lhe levasse a visão, conseguiria trabalhar da mesma forma que sempre o fizera: Dez passos para a direita, contornar o sinal, subir três degraus, voltar à esquerda… O que pareceria, se contado aos outros, um pessimismo nato, para Sofia era somente precaução. Deveria prever um possível desastre, para que se um dia este chegasse, não lhe causasse grande incómodo. Não se poderia prever tudo, e ela tinha total consciência disso, mas iria dar o seu melhor, na antecipação da maioria das possibilidades.

Sofia vivia sozinha desde os seus 20 anos, idade com que começara o seu trabalho de recepcionista da clínica. Agora com os seus 23 anos completos, pouco se havia alterado da sua rotina diária. Nunca fora uma pessoa de muitos amigos e de grandes saídas. Gostava do seu cantinho e de descansar a ver um bom filme após o jantar. Na verdade, por vezes, sentia-se só. Tivera alguns namorados ao longo dos seus últimos anos de vida, mas nada sério, o suficiente, para que constituísse a sua própria família. Desde há cerca de três meses que conhecera o seu actual namorado, o Nuno. Nutria alguma esperança por esta nova relação, apesar do grande medo de que o seu próprio pessimismo levasse mais uma vez a uma conclusão negativa da relação. Não seria a primeira vez que o seu ciúme em excesso e o seu lado possessivo fazia com que os seus companheiros se fartassem do controlo em demasia, e consequentemente, se fartassem dela…

Dos seus pais, vivendo longe, recebia com frequência as suas visitas aos fins-de-semana. Nunca haviam concordado com a sua interrupção dos estudos e saída de casa, mas nunca tiveram coragem para cortar relação, com aquela, que era a sua única filha. Era-lhes, no entanto mais fácil manter uma certa distância emocional, para que de alguma forma não pensassem tanto na distância física que os separava e na opção repentina da filha em deixá-los para trás.

A noite de sexta passara-se com um filme e um deitar cedo de cansaço. No Sábado passeara um pouco com Nuno. Soubera-lhe bem espairecer. E Domingo seria dia de esperar pelos seus pais. Eles lá chegaram, após o almoço. A tarde passara-se enquanto lhe perguntavam mil vezes se estava realmente bem. Que a achavam cada vez mais magra, se andaria ela a comer em condições, se precisava de alguma coisa, se isto, ou aquilo. Fora precisamente por interrogatórios constantes que Sofia resolvera sair de casa, mas a sua saída serviu somente para que não os tivesse de ouvir diariamente. Odiava que a visitassem, apesar da saudade. Ela sentia-se bem, sempre estivera bem, não valia a pena tanto lamento e preocupação. Quando saíram, antes da hora de jantar (após tudo o que ouvira, não tivera a mínima vontade de os convidar para jantar) Sofia olhara-se ao espelho: estava realmente mais magra… mas estava bem. Pegara na nota de cinquenta euros deixada por eles na mesinha do corredor, e guardara-a. Dar-lhe-ia jeito.

Cerca das onze da noite, daquele mesmo dia, Sofia ouvira a campainha. Levantara-se do sofá, e foi com um sorriso no rosto e um abraço que recebera Nuno. Não esperava que ele hoje a visitasse, e a surpresa deixara-a radiante. Passaram a noite juntos, felizes. Pela primeira vez Sofia sentia ser verdadeiramente amada. Ele gostava dela, tal e qual como ela era, como se a visse por dentro, pelo menos, ela assim o sentia.

Na manha seguinte ele saíra cedo, o emprego o esperava e era bastante mais longe que o dela. Ela sentira o seu beijo de despedida e o sussurro de até logo, e deixara-se a dormitar na cama por mais uns minutos. Se haviam duas coisas que a mantinham viva, uma delas era ele, e outra o seu emprego.

Finalmente levantara-se e tomara um longo banho quente. Ainda sentia o toque apaixonado dele a percorrer-lhe a pele, os seios, as curvas do corpo. Saíra de casa com o sorriso aparvalhado no rosto, de quem passou uma grande noite de amor. De passos memorizados, ocupava a sua mente com o recordar de cada minuto que passara com ele.

A distracção de pensamentos nem a deixara reparar na confusão que se alastrara nas ruas. Pessoas corriam de um lado para o outro e ao fundo da rua a sirene de bombeiros indiciava desgraça. Sofia acordara com o buzinar de um carro, enquanto atravessava uma rua sem olhar.

O fumo alastrava-se pelas ruas, o cheiro a queimado pelo ar atordoava os transeuntes. “Como só reparei nisto agora?” – questionava-se. E de onde viria o fumo? O que teria acontecido? Sofia continuara em direcção ao seu emprego, em direcção ao fumo… As chamas deflagravam ainda ao longo da rua. Todo o prédio da clínica havia sido consumido, e as chamas seguiam agora o seu rumo, rua abaixo. As lágrimas caíram-lhe pelo rosto, sem que conseguisse evitar. Resolveu voltar para casa. Nada ali faria e o seu trabalho estava sem dúvida perdido. Andou a passo apressado no caminho de regresso, entrando em casa em pranto. Tentar ligar ao Nuno, mas este não lhe atendera.

Deitara-se na cama, sem que as lágrimas cessassem. O que faria agora? Como teria acontecido tal desgraça? Porque não tentara prever isto?

A campainha tocara, e Sofia apressara-se a abrir. Deveria ser Nuno e ela ansiava cair-lhe nos braços.

“Sofia Melo?”

“Sim…sou eu”

“Está detida pelo fogo posto à clínica Pompeu. Tudo o que disser poderá ser usado contra si em Tribunal. Terá direito a um advogado…”

“O quê? Eu? Fogo posto? Mas, o que é que se está a passar?”

Sofia foi levada para a esquadra, onde seria interrogada. Tanto o dono da Clínica, como os seus trabalhadores, informaram a polícia de que Sofia havia sido despedida há três meses atrás. Desde então, que pela hora de início de serviço, Sofia aparecia a porta da clínica, olhava e voltava para trás. O ritual repetia-se dia após dia, mesmo com os sucessivos conselhos dos ex-colegas para que consultasse um médico. Sofia não estava realmente bem, definhava de dia para dia. Sem o emprego, ficara sem qualquer rendimento que a permitisse alimentar-se. Ia comendo, aqui e ali, pela caridade dos poucos amigos e o dinheiro que os pais lhe iam deixando. Passava os seus dias de telefone em punho, acreditando que ouvia chamadas de clientes…na sua própria casa. O telefone havia sido cortado há dois meses atrás, por falta de pagamento.

Aquando do interrogatório, Sofia não aceitara os argumentos que lhe eram colocados diante dos seus olhos. Não havia sido despedida, simplesmente indicada para trabalhar em casa, por falta de espaço na clínica, pagando-lhe a clínica as suas chamadas de telefone. Segundo ela, caso o telefone tivesse sido cortado, só o teria sido agora, pois ainda há umas horas, ele havia funcionado, quando tentara ligar para Nuno. Alias, ela nunca poderia ter incendiado a Clínica, pois passara toda a noite com Nuno. Segundo os bombeiros, o incêndio deveria ter-se iniciado por volta da meia-noite. Ela teria um álibi, bastaria falarem com ele…

Claro, se o conseguissem encontrar. O número de telefone existente, bem como o nome e a morada, indicavam que Nuno, não passava de mais umas das alucinações de Sofia. Nunca existira sequer.

Sofia fora internada numa clínica internada, onde começou a passar grandes temporadas da sua vida.

Nuno continuara a telefonar-lhe, esporadicamente, nas fases em que Sofia voltava a casa. Desculpara-se por nunca ter aparecido para a ilibar, dizendo que só depois soubera do acontecido. Ela nunca o perdoara, pedindo-lhe que não a voltasse a procurar.

Pelas 15 horas de dia 10, Joana Fonseca aparecera na clínica agora inexistente. Voltara para trás, ao perceber o acontecido… Passados uns dias, recebera uma chamada das novas instalações da clínica, remarcando o exame. O dinheiro recebido do seguro, tinha permitido a compra de um novo espaço, mais moderno que o anterior, seguindo assim a clínica, o seu brilhante futuro.

2 Respostas to “Conto 1”

  1. Pedro Miranda Says:

    hihi! muito boa história. podes melhorar um bocadinho na forma. Algumas frases parecem sem emoção, não estás a escrever um noticiário =D

    mas achei a historia genial, lida com o insano problema da sanidade, lol.

  2. Parvo Na Cadeira Says:

    Ai.. estas belas histórias, já tinha lido. Como o Pedro diz há umas arestitas a limar, mas está muito bom🙂


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