Por onde vou, para que chegue a casa? – Conto 2

(Porque o Psicologicamente, também tem os seus momentos de ficção)

Não era fácil chegar a casa, com toda a cidade virada do avesso. Joel sentia-se confuso. Não sabia se havia perdido por completo a sua capacidade de orientação, ou se simplesmente algo tinha distorcido a dimensão espacial do mundo.
Tudo começara há uns minutos atrás, no preciso momento em que saíra do trabalho em direcção a casa. Uma espécie de tontura fizera-o cair de joelhos no chão. Fechou os olhos, tentando procurar o equilíbrio perdido. Sentiu-se melhor. Reabriu os olhos, deixando de sentir onde estava, para onde ia, de onde vinha. Como se a estrada tivesse alterado o aspecto de há segundos antes. Estaria noutro sítio? O local parecia o mesmo, os edifícios mantinham os seus conteúdos, contudo, em locais opostos. As cores alteradas, os cheiros diferentes. Seria o mesmo espaço, num tempo diferente? Seria o mesmo tempo, num espaço distorcido? Joel só ouvira falar em distorções espaço-temporais nos livros de ficção científica que por vezes lia ou nos filmes que se regalava em ver. Não faziam parte da realidade. Na realidade o mundo não mudava de lugar com um piscar de olhos. O tempo demorava a passar, sendo um minuto contado pelos preciosos sessenta segundos do relógio.
Joel levantara-se lentamente, olhando em seu redor. Os transeuntes passavam de um lado ao outro, naturalmente. Fosse o fosse que tivesse acontecido, só ele o considerava estranho. Teria sido ele a mudar e não o tempo? De alguma forma teria sido transportado para outro local? Nenhuma explicação era plausível.
Tentando abstrair-se de todo aquele surrealismo, Joel concentrava-se no caminho que deveria tomar para chegar a casa. Tinha-o memorizado, e no entanto nunca se preocupara em encontrar pontos de referência ou em decorar as ruas e ruelas pelas quais passava. Era simplesmente por ali, aquele ali que sempre fora demasiado igual. Automaticamente, sabia quando virar à esquerda ou à direita, mas as direcções não eram agora as mesmas. Ou o cérebro deixara de identificar o caminho?
O tempo ia passando, e enquanto os seus passos se gastavam na calçada, começava a perder as esperanças. Não saberia voltar. Sem telemóvel consigo, e sem qualquer número sabido de memória, não tinha a quem pedir auxilio. Resolveu procurar algum polícia, na esperança de que tivesse alguma explicação para o sucedido e o soubesse informar do caminho para a sua rua. A sua busca fora em vão. Por entre ruas e vielas, nenhum polícia se conseguia encontrar. “Que cidade esta, sem protecção?” – Praguejou baixinho, enquanto pensava em nova solução.
Recorreu então às outras pessoas que por ali passavam: “Sabe-me dizer onde fica a Rua das Acácias”? As respostas iam desde o “Não conheço” até ao silêncio de quem se desvia para não ter de dar qualquer resposta. Pensariam as pessoas que Joel lhes quereria fazer algum mal? Teria aspecto de assaltante, de bandido? Joel olhara para si próprio, tentando encontrar respostas. A barba, esquecida de fazer, e o jeito tresloucado de quem não sabe onde mora, talvez contribuíssem para as reacções obtidas. Mas como disfarçar o desespero de se sentir completamente perdido?
Cansado e perdendo as esperanças de encontrar o seu rumo, Joel sentara-se num banco de jardim, sem reparar na tabuleta que marcava o “Jardim das Acácias”. À caída da noite, juntavam-se as lágrimas que lhe corriam no rosto. Ali ficara deitado, ao frio, esperando um novo dia, um novo alento. Esta seria somente mais uma das noites que passaria ao relento.
Quanto à Rua das Acácias? Deixara de existir para Joel, no momento em que dela fora escorraçado, anos antes. Desde então que vagueava pelas ruas da cidade, pedindo, suplicando, chorando. Muitas eram as vezes, que tentava mentalizar-se que nada havia acontecido. Voltava atrás no tempo, mentalmente, esperando encontrar a sua casa no sítio de sempre, no número 10 da Rua das Acácias.

Mas esta já não era a sua casa…

5 Respostas to “Por onde vou, para que chegue a casa? – Conto 2”

  1. Parvo Na Cadeira Says:

    Como já tinha dito:

    ADOREI!🙂

  2. Dextro Says:

    Muito bom realmente e fez-me a mim lembrar que tenho o meu conto eternamente inacabado sem ver nada escrito há mais de 1 ano😳

    *Dextro volta a abrir o ficheiro*

  3. Psicologicamente... Says:

    tks=)

    Já perdi a conta às coisas inacabadas que tenho escritas para aqui =S

    *Acho muito bem* ^^

  4. Danielinhaa Says:

    Genial. Adorei a forma como escreves. Lindo mesmo.🙂

  5. Psicologicamente... Says:

    owh.. muito obrigada =)))


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