E-zine Nova, para amantes da Ficção!

Após a ausência deste ultimo mês aqui no blog, cá estou eu de volta. Caso tenham reparado na “alteração” dos widgets nas barras laterais aqui do Psicologicamente, deveu-se a um probleminha do wordpress, que desapareceu com eles por uns dias. Portanto, foi necessário voltar a colocá-los nos seus respectivos lugares, ou melhor, colocá-los mais ou menos como estavam antes.

Como muitos de vocês já sabem, tenho um gostinho especial pelas áreas da Ficção Cientifica e da Fantasia e por rabiscar umas palavrinhas dentro destes géneros. Como tal, aproveito para publicitar aos amantes desta área, uma Nova iniciativa.

Trata-te de um e-zine, chamado Nova (um fanzine electrónico na área da Ficção Científica e do Fantástico), disponibilizado gratuitamente aqui (no seu formato original, compatível com o Microsoft Reader) ou aqui (em formato .pdf). Para os que costumam estar atentos a este tipo de iniciativas em Portugal, já devem com certeza ter ouvido o nome do seu editor, Ricardo Loureiro, através dos seus projectos anteriores como o Hyperdrivezine.

No primeiro número do e-zine podem encontrar 3 contos, Noosfera, da autoria de João Ventura; A Saga do Homem-Cavalo, por Telmo Marçal, e… pois, e um contozinho da minha autoria, chamado O Processo. Já há algum tempo, este foi o conto com o qual participei num dos passatempos que o editor do fanzine organizou no fórum Filhos de Athena. Agora aqui o encontram, para quem tenha curiosidade em ler.

Além dos contos, podem ainda contar com duas resenhas de Artur Coelho acerca do Conan de Robert E. Howard (quem não conhece o Conan?); uma resenha por Jefferson Luiz Maleski dedicada a’ O Pistoleiro – A Torre Negra, de Stephen King; um artigo de Cynthia Ward: “Fc no Feminino”, e ainda alguns complementos pelo meio do fanzine, que deixo à vossa descoberta.

Fica o convite à leitura e a qualquer comentário que desejem fazer aqui, ou no fórum do e-zine.

El Laberinto del Fauno – Fantasia ou Imaginação?

Os que costumam acompanhar este blog, já devem ter reparado, que esporadicamente vou falando de um outro filme. Hoje, chegou a vez de El Laberinto del Fauno. O filme, do realizador mexicano Guillermo del Toro, venceu o 27º Fantasporto – Festival Internacional de Cinema do Porto, ao ganhar o prémio para o Melhor Filme da secção oficial Cinema Fantástico, e ganhou, há uma semana, Óscares de Melhor Direcção Artística, Fotografia e Caracterização.

Confesso que é a primeira vez que me desloco ao cinema, para visualizar um filme falado em Espanhol. Tendo em conta o maior hábito dos portugueses em ver filmes na língua inglesa/americana, por vezes as diferentes línguas provocam-nos alguma estranheza inicial. Esta é uma estranheza que rapidamente se dissolve, neste filme. Rapidamente nos deixamos levar pela história, entrando no ambiente de rescaldo de guerra e de fantasia que o filme nos proporciona.

Caracterizaria este filme, como um conto de fadas para adultos. Por vezes, torna-se difícil criar um conto de fadas, que não caia na infantilidade e no excesso de irrealismo. Aqui, podemos considerar duas realidades paralelas: o mundo de fantasia de Ofélia, a criança (personagem) central, e o mundo dos adultos, num ambiente cruel de guerra. Assim, estamos perante um filme que nos mistura personagens mágicas, com as imagens violentas de um pós-guerra: realidade cruel vs ficção maravilha, ou guerra vs esperança?

Toda a dualidade é facilmente ligada a duas das personagens centrais: Ofélia, dando-nos a imagem de esperança e pureza de quem acredita num mundo de fadas. E Capitán Vidal, seu padrasto: cruel e implacável. Como joguete entre ambos, vemos a mãe de Ofélia, que tenta a todo o custo balançar os dois mundos, tentando chamar Ofélia “à terra”, para que agrade o seu padrasto. E por fim, Mercedes, uma mulher do povo tentando repor a justiça do “mundo real”.

Será a fantasia um mundo real alternativo, ou existirá somente na mente de uma criança atormentada pela verdadeira realidade?

Não colocaria este filme, na lista dos meus “favoritos”, mas é sem dúvida um bom filme a ver.

 

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Psicologicamente Fauna…

Por onde vou, para que chegue a casa? – Conto 2

(Porque o Psicologicamente, também tem os seus momentos de ficção)

Não era fácil chegar a casa, com toda a cidade virada do avesso. Joel sentia-se confuso. Não sabia se havia perdido por completo a sua capacidade de orientação, ou se simplesmente algo tinha distorcido a dimensão espacial do mundo.
Tudo começara há uns minutos atrás, no preciso momento em que saíra do trabalho em direcção a casa. Uma espécie de tontura fizera-o cair de joelhos no chão. Fechou os olhos, tentando procurar o equilíbrio perdido. Sentiu-se melhor. Reabriu os olhos, deixando de sentir onde estava, para onde ia, de onde vinha. Como se a estrada tivesse alterado o aspecto de há segundos antes. Estaria noutro sítio? O local parecia o mesmo, os edifícios mantinham os seus conteúdos, contudo, em locais opostos. As cores alteradas, os cheiros diferentes. Seria o mesmo espaço, num tempo diferente? Seria o mesmo tempo, num espaço distorcido? Joel só ouvira falar em distorções espaço-temporais nos livros de ficção científica que por vezes lia ou nos filmes que se regalava em ver. Não faziam parte da realidade. Na realidade o mundo não mudava de lugar com um piscar de olhos. O tempo demorava a passar, sendo um minuto contado pelos preciosos sessenta segundos do relógio.
Joel levantara-se lentamente, olhando em seu redor. Os transeuntes passavam de um lado ao outro, naturalmente. Fosse o fosse que tivesse acontecido, só ele o considerava estranho. Teria sido ele a mudar e não o tempo? De alguma forma teria sido transportado para outro local? Nenhuma explicação era plausível.
Tentando abstrair-se de todo aquele surrealismo, Joel concentrava-se no caminho que deveria tomar para chegar a casa. Tinha-o memorizado, e no entanto nunca se preocupara em encontrar pontos de referência ou em decorar as ruas e ruelas pelas quais passava. Era simplesmente por ali, aquele ali que sempre fora demasiado igual. Automaticamente, sabia quando virar à esquerda ou à direita, mas as direcções não eram agora as mesmas. Ou o cérebro deixara de identificar o caminho?
O tempo ia passando, e enquanto os seus passos se gastavam na calçada, começava a perder as esperanças. Não saberia voltar. Sem telemóvel consigo, e sem qualquer número sabido de memória, não tinha a quem pedir auxilio. Resolveu procurar algum polícia, na esperança de que tivesse alguma explicação para o sucedido e o soubesse informar do caminho para a sua rua. A sua busca fora em vão. Por entre ruas e vielas, nenhum polícia se conseguia encontrar. “Que cidade esta, sem protecção?” – Praguejou baixinho, enquanto pensava em nova solução.
Recorreu então às outras pessoas que por ali passavam: “Sabe-me dizer onde fica a Rua das Acácias”? As respostas iam desde o “Não conheço” até ao silêncio de quem se desvia para não ter de dar qualquer resposta. Pensariam as pessoas que Joel lhes quereria fazer algum mal? Teria aspecto de assaltante, de bandido? Joel olhara para si próprio, tentando encontrar respostas. A barba, esquecida de fazer, e o jeito tresloucado de quem não sabe onde mora, talvez contribuíssem para as reacções obtidas. Mas como disfarçar o desespero de se sentir completamente perdido?
Cansado e perdendo as esperanças de encontrar o seu rumo, Joel sentara-se num banco de jardim, sem reparar na tabuleta que marcava o “Jardim das Acácias”. À caída da noite, juntavam-se as lágrimas que lhe corriam no rosto. Ali ficara deitado, ao frio, esperando um novo dia, um novo alento. Esta seria somente mais uma das noites que passaria ao relento.
Quanto à Rua das Acácias? Deixara de existir para Joel, no momento em que dela fora escorraçado, anos antes. Desde então que vagueava pelas ruas da cidade, pedindo, suplicando, chorando. Muitas eram as vezes, que tentava mentalizar-se que nada havia acontecido. Voltava atrás no tempo, mentalmente, esperando encontrar a sua casa no sítio de sempre, no número 10 da Rua das Acácias.

Mas esta já não era a sua casa…

Conto 1

(Um pouco diferente do habitual do psicologicamente, hoje deixo-vos algumas palavras de ficção. Nada pensado ou planificado, somente umas palavras aqui e ali em forma de pseudo-conto)

– Estou sim. Boa tarde, clínica Pompeu, em que posso ser útil?
– O meu nome é Joana Fonseca, tenho uma ecografia marcada para dia 10 as 17h, queria saber se seria possível marcar para um pouco mais cedo?
– Só um segundo, vou verificar.

Sofia pegou na agenda de marcações e encontrou o nome da paciente no dia e hora mencionados.

– Ora, temos aqui um espaço as 15 horas, é-lhe possível?
– Óptimo, Óptimo, é sim, fica para as 15 então. Muito Obrigada
– Obrigada e boa tarde

Mais uma semana de trabalho que chegava perto de fim. Sofia pegava na sua mala e saía da Clínica em direcção a sua casa. O caminho levava apenas dez minutos, percorridos a pé. Andaria de olhos fechados, se assim fosse necessário, de tantas serem as vezes que caminhava aqueles mesmos passos. As mesmas curvas, os mesmos degraus contados com precisão, as mesmas lojas, as mesmas casas. Sofia atentava em todos os pormenores. Sempre fora perfeccionista, com alguns traços a tender ao obsessivo. Como se um inexplicável medo lhe dissesse que um dia todas as informações lhe poderiam ser úteis. Se um dia qualquer acidente do destino lhe levasse a visão, conseguiria trabalhar da mesma forma que sempre o fizera: Dez passos para a direita, contornar o sinal, subir três degraus, voltar à esquerda… O que pareceria, se contado aos outros, um pessimismo nato, para Sofia era somente precaução. Deveria prever um possível desastre, para que se um dia este chegasse, não lhe causasse grande incómodo. Não se poderia prever tudo, e ela tinha total consciência disso, mas iria dar o seu melhor, na antecipação da maioria das possibilidades.

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