Pseudo Kill Bill Dream – Parte II

O corpo começou a sair da mala. Em nosso redor, parecia que ninguém reparava. Ninguém dava atenção. Como seria possível ninguém ligar ao que se estava a passar? Como ninguém se regelava de pavor, tal como eu? Como não notavam que tinham uma morta-viva no meio do transporte público onde viajavam? Não consegui manter-me a seu lado enquanto a via sentar-se como se de uma pessoa normal se tratasse. Levantei-me. Fui para um banco mais à frente. Não sabia o que fazer. Deveria livrar-me dela. Mas agora como o faria? Como? Lembrei-me que ela não deveria conseguir andar. As atrocidades que lhe haviam sido feitas a impediam de tal. E de facto ela assim o disse: “a tua sorte é que me deixaram sem andar.”. A voz era negra demais, parecendo ter saído do fundo do abismo. Mas mesmo assim ela tentou levantar-se e conseguiu. “Já que teoricamente também não devia falar, e consigo, porque não tentar andar…realmente nada como tentar”. Olhava-me com um olhar intimidante como se me quisesse matar-me. Era o que devia querer de facto… A única coisa que me ocorreu fazer foi sair do autocarro. Toquei na campainha para que o motorista parasse. Mas para chegar à porta de saída, teria de passar por ela. Ela que ocupava agora o centro do corredor do autocarro, começando a despertar as atenções. Mesmo assim, não sei como não criou o pânico. Começava a ver-se o medo nos olhares alheios, a desconfiança, mas todos se mantinham nos respectivos lugares. Tentei saltar por cima de alguns bancos para chegar à saída, mas ela tentou agarrar-me. Seria impossível passar. Corri para a porta da frente, pedindo mil desculpas ao motorista: “Desculpe, deixe-me sair por aqui”. Mas ela correu até mim, saindo também do autocarro. As suas pernas pareciam habituar-se a uma velocidade estonteante à capacidade de andar. Tentei voltar para dentro, talvez a porta se fechasse e ela não conseguisse lá voltar a entrar. Mas conseguiu…entrei de novo, pela porta de atrás, que ainda se mantinha aberta, e ela também assim o fez. Demorou tempo demais a agarrar-me…foi a minha sorte. Saí de novo e a porta fechou-se, obrigando-a a lá dentro ficar. Respirei fundo. Descansei e em simultâneo receei. Agora ela estava solta pelas ruas… era suposto tê-la destruído. E agora? Para onde iria? O que faria? Quais os resultados desta enorme desgraça, de ter solto um monstro no mundo?

Houve como que um lapso de tempo, entre a saída do autocarro e o regresso a casa. Acho que não sabia ao certo como dizer que ela andava perdida nas ruas. Todos iriam ficar receosos. Não fazia ideia de como ficaria a nossa situação depois de tudo isto eclodir na sociedade. Andei por um pouco a pairar pelas ruas, sempre com medo de que ela me surgisse de uma qualquer direcção, até que cheguei finalmente a casa. Entrei, de ar cabisbaixo, preparando-me para dar a triste noticia. Mas não havia qualquer notícia a dar aos dois corpos mutilados com que me deparei. Mortos. Chacinados… os meus pais…

(to be continued)

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