Acordo ou Palhaçada Ortográfica? – Rescaldo do Prós e Contras

Pois é, o assunto já corre há anos, muito já foi dito por blogs, jornais e jornalitos, mas não consigo deixar de vir dar a minha opinião. Ontem, ao ver o programa Prós e Contras na RTP1 fiquei com ainda mais vontade de dizer algumas coisas, e comentar outras…

Do lado a favor do acordo Carlos Reis e Lídia Jorge. Do outro, Vasco Graça Moura e Alzira Seixo.

E antes de mais convém deixar a minha posição: completamente contra este acordo.

Podem ver os seus contornos aqui.

Não sejamos acusados de falar sem conhecimento de causa.

As 10 alterações mais salientes:

1. Eliminação do c e do p, em palavras como: ação, acionar, afetivo, aflição, aflito, ato, coleção, coletivo, direção, diretor, exato, objeção; adoção, adotar, batizar, Egito, ótimo.

2. Colocação do c e do p como “facultativos” em palavras como: aspecto e aspeto, cacto e cato, caracteres e carate­res, dicção e dição; facto e fato, sector e setor, ceptro e cetro, concepção e conceção, corrupto e corruto, recepção e receção

3. Quando, nas sequências interiores mpc, mpç e mpt se eliminar o p de acordo com o determinado nos parágrafos precedentes, o m passa a n, escrevendo-se, respetivamente, nc, nç e nt: assumpcionista e assuncionista; assumpção e assunção; assumptível e assuntível; peremptório e perentório, sumptuoso e suntuoso, sumptuosidade e suntuosidade.

4. É facultativo assinalar com acento agudo as formas verbais de pretérito per­feito do indicativo, do tipo amámos, louvámos, para as distinguir das correspondentes formas do presente do indicativo (amamos, louvamos), já que o timbre da vogal tónica/tônica é aberto naquele caso em certas variantes do português.

5. Prescinde-se de acento circunflexo em: creem deem (conj.), descreem, desdeem (conj.), leem, preveem, redeem (conj.), releem, reveem, tresleem, veem.

6. Deixam de se distinguir pelo acento gráfico (prescinde-se dele mais uma vez): Pára (de parar) e para (preposição), etc.

7. Levam acento agudo ou acento circunflexo, conforme o seu timbre é, respetivamente, aberto ou fechado nas pronúncias cultas da língua: académico/acadêmico, anatómico/anatômico, cénico/cênico, cómodo/cômodo, fenómeno/ fenômeno, género/gênero, topónimo/topônimo; Amazónia/Amazônia, António/Antônio, blasfémia/blasfêmia, fémea/fêmea, gémeo/gêmeo, génio/gênio, ténue/tênue.

8. Retira-se o hífen em locuções como: cão de guarda, fim de semana, sala de jantar, cor de açafrão, cor de café com leite, cor de vinho, etc

9. Deixa de se empregar o hífen em palavras como: antirreligioso, antissemita, contrarregra, contrassenha, cosseno, extrarregular, infrassom, minissaia, tal como hiorritmo, hiossatélite. eletrossiderurgia, microssistema, microrradiografia.

10. Não se emprega o hífen nas ligações da preposição de às formas monossilábicas do presente do indicativo do verbo haver: hei de, hás de, hão de, etc.

Vamos então pensar: Para que serve este acordo?

Segundo os senhores que são a favor do mesmo, serve para:

(e isto foram argumentos utilizados ontem no debate)

Uniformizar a Língua Portuguesa: Como todos sabemos, os Brasileiros, bem como os Africanos de Língua oficial portuguesa, apresentam na sua forma de falar e escrever algumas diferenças e peculiaridades em relação a nós, Portugueses. Convém, quanto a mim salientar, que a diferença entre as variantes da língua, não se resume à ortografia. Como exemplos? O uso do gerúndio, o uso de palavras diferentes (todos se lembram do anúncio pimbolim é matraquilho!). Portanto, a Língua Portuguesa não vai ficar igual em todo o lado. As Variantes continuarão a existir. Aliás, quando falam, como no ponto 7 referido acima, que determinada nova regra é facultativa consoante as pronúncia, não estamos a uniformizar nada, estamos simplesmente a dizer que uma coisa tanto assim como assado, está correcta. Isto não é uniformizar, é desregrar. É dizer que com tanta coisa “facultativa” vamos deixar de saber o que está certo ou errado. Bem basta vermos por ai tanta atrocidade à nossa língua, com erros ortográficos. Assim deixamos de saber o que é erro ou não… ou melhor, nada é erro, portanto temos de nos preocupar menos ainda em escrever correctamente. Parece-vos que isto é uniformizar a língua, em prol de um bem comum? A mim não.

Aproximar os povos: Em seguimento do ponto anterior, tudo isto do acordo tem servido para dizer que esta é uma forma de nos aproximar dos outros povos que falam o Português. Não haveria outras provas de “não racismo” que pudessem ser dadas, ao invés do “vamos deturpar a nossa própria língua, para que não digam que somos racistas?”. É que sinceramente, o argumento do racismo não tem absolutamente nada a ver com isto, como o sr. Carlos Reis ontem se fartou de dizer. É legitimo que o povo Brasileiro, tanto como o Africano, tenham adaptado a língua que usam (o Português), às suas raízes e cultura. Acho que todos nossos reconhecemos que há diferenças (e quanto a mim significativas), mas também todos reconhecemos que não é por elas, que nos deixamos de entender uns com os outros. A língua é a mesma, mas são variantes diferentes. Não estamos a deturpar a cultura, tanto a nossa, como a deles, ao tentar fazer alterações que não levam a nada?

Dar um maior reconhecimento à Lingua Portuguesa: Mas vai ser mais reconhecida porque deixamos de usar os c’s e os p’s e outros que tais? Vão existir várias variantes, como existiam antes. Vamos todos falar português, como falávamos antes. Não percebo o propósito, a mim parece-me uma utopia, que estas alterações façam com a língua seja mais ou menos reconhecida do que é agora.

Simplificar a língua: Sim, isto foi usado como argumento ontem no debate. “Como há muitos analfabetos, assim seria mais fácil para aprenderem” – segundo novamente, o senhor Carlos Reis. Tal como alguns linguistas bem lhe responderam: não, não serve para simplificar nada. As pessoas aprendem da forma que lhes for ensinado, estas alterações não são de forma alguma facilitadoras da aquisição da linguagem. Não será precisamente o contrário, até? As duas por três, com as alterações, as pessoas até deixam de saber “afinal, qual é a forma correcta de escrever isto e aquilo?”. Com tanta coisa “facultativa” a resposta deve ser: é como vos apetecer. Ok, diminuímos os erros, porque diminuímos as regras. Isto é? Estupidificar as pessoas?

Então se todos os argumentos para este acordo são, quanto a mim, grandes falácias, que se tiverem algum verdadeiro objectivo, é puramente político, para que vamos alterar, aquela que é a nossa língua?

Passemos, por fim, que este post já vai longo, a analisar alguns dos pontos de alteração acima referidos.

Quanto aos “facultativos” já disse o que tinha a dizer….

Ponto 1: Eu, pessoalmente, odeio as palavras assim. Acho que apesar de o c e o do serem “surdos”, eles têm uma função nas palavras. E se em algumas pode não fazer tanta diferença, noutras faz, especialmente na forma como a palavra passa a ser pronunciada. Ok, podem sempre usar o argumento de ontem: “mas lembramo-nos de como são agora pronunciadas, não vamos passar a pronunciar de forma diferente”. Então em vez de mantermos a forma como as coisas são escritas (a correcta) vamos memorizar isso, para não passarmos a pronunciar em erro. Faz sentido?

Ponto 4: Novamente, segundo o senhor Carlos Reis (sim, porque este senhor disse coisas magnificas ontem), esta alteração na acentuação é simplesmente um caso de “contextualização”. Basta-nos contextualizar a palavra, para saber em que tempo verbal ela se encontra, segundo ele. É verdade que algumas palavras (chamadas homógrafas), já tinham esta peculiaridade: de se escreverem da mesma forma, mas terem pronuncia e significados diferentes (colher o trigo, comer com a colher). Então, mas…não íamos simplificar a língua? Ah Afinal não, afinal vamos arranjar é mais palavras iguais, que precisem de contextualização.

“Nós amamos a vida”; à Presente ou Passado? É que se ainda amamos é óptimo, se amámos isto pode ser a última frase deixada por um grupo que acabou de cometer suicídio colectivo. Não parece que se tire assim tão bem pelo contexto… E muito menos me parece que se deva estragar desta maneira a nossa gramática. Os tempos verbais existem para alguma coisa, credo.

Ponto 10 – E vamos mais uma vez estragar a nossa gramática, neste caso o verbo haver.

Bem, fico-me por aqui. Sei que este será um post que suscitará polémica, mas a minha opinião não será por isso alterada. Cada um tem direito a pensar pela sua cabeça, e se esta mudança a mim me faz muita confusão, porque não acho que faça qualquer sentido, talvez haja a quem não faça confusão nenhuma. Provavelmente, estes chamar-me-ão de nacionalista, ou algo do género. Eu continuo a achar que uma alteração deve ser feita quando há motivos para que esta seja feita. Aqui não encontro motivos válidos.

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